o duro mundo em que vivemos

tiazona chega perto da mesa de aperitivos, gasta uns segundos olhando e indecisa pergunta
– os patês são de que?
– alho, tomate, ervas finas e azeitona
– azeitona? com essa cor?
– certeza, azeitona.
– mas vc já provou?
– não, não gosto de azeitona.
– então como tem certeza?
– aprendi a identificar pq não gosto, é igual morar na selva e saber quais cogumelos são venenosos.

ela faz cara de quem não entendeu, pega uma torradinha, passa o patê e coloca na boca.
– e ai?
– é…. azeitona.
– se fosse na selva, vc tava morta

O menino e o balão

O menino e o balão
O balão descrevendo uma tênue linha entre os carros, lado a lado, entre vácuos.
O menino descrevendo uma tênue linha na vida, lado a lado, entre fatos.
O balão um dia inflado, hoje abriga pouco hélio.
O peito um dia cheio, hoje apenas o coração.

O balão pequeno.
O menino compacto.
O balão azul.
Os olhos castanhos.

O balão tenta voar, mas não consegue.
O menino, pés fincados no chão, por obrigação.
O balão pára, os carros passam.
O menino pára, a vida passa.

O balão grita por socorro, ninguém ouve.
O menino pede socorro, ninguém entende.
O balão, quando o fim era certo, se vê envolto pelos braços.
Que um dia abracem também o menino

Ganhei esse texto de uma amiga, muito tempo atrás, depois de realmente ter salvo um balão que flutuava no meio do trânsito.

Lembrança da prateleira

Um amigo morreu (de overdose, em Londres) e a única coisa que conseguiu pensar é no livro que pegou emprestado, enrolou 2 anos e nunca devolveu.

dos perdidos

tenho uma lata de idéias. na verdade antes era uma cadernetinha, virou um Zip Lock, dai uma lata (q eu perdi), ficou um tempo só como um monte de papeizinhos soltos e finalmente voltou a ser uma lata.

São ideias, historias, frases, memórias ou coisas assim, que faz um bom tempo estou enrolando pra passar pro Moleskine que ganhei da minha chefe.

É do tipo de bagunça de onde veio o nome desse blog (igual eu falei aqui )

A grande questão deste post (e só faço ele aqui pq é muita coisa pra explicar no twitter) é que não consigo encontrar minha lata. Fui guardar algumas novas anotações e… cadê?

(deixo bem claro que este desaparecimento não tem nada a ver com falta de post por aqui. se não posto é por pura enrolação mesmo.)

Respingos

Tudo começou depois de um dia de trabalho em uma casa que ainda não havia terminado de ser construída, o encanamento ainda estava incompleto, então ele não pode tomar uma ducha depois de pintar os sete comodos + o corredor.
Chegou em casa cansado e como a tinta já estava seca precisaria usar um removedor ou algo assim, a preguiça falou mais alto e acabou dormindo daquele jeito mesmo.

No dia seguinte acordou atrasado e pensou “se posso usar roupas velhas sujas de tinta pra trabalhar, porque eu mesmo não posso estar um pouco sujo?” e saiu, economizando o tempo mas sem tomar banho. No final daquele dia já eram respingos de 9 cores diferentes. Ele até tomou banho mas, por mais que não estivesse mais fedendo, nem todas a tinta saiu.

A tinta se acumulou, era o salmão da sala de estar por cima do verde do quarto do bebê e o branco da cozinha. Acabou virando um tipo de atração, ficou conhecido por isso e contratavam ele só pra poder dizer depois pro amigo  “Sabe aquele cara dos respingos? Uma das camadas dele foi pintando essa parede.”

Acabou se acostumando com aquilo, eram camadas e mais camadas. Principalmente nas mãos e braços, mas depois de um tempo o rosto já tinha alguams gotas também. E as pernas, depois de um verão inteiro pintando de bermuda.

No final já era por todo o corpo  e cabelo. Praticamente um membro da yakuza, com a pele coberta de tinta. Mas ele parecia mais uma pintura abstrata, onde você só via bege se algum decorador tivesse usado a cor de pele num projeto na última semana.

planta de estimação

andava sempre com ela, um pequeno caule que saia da bolsa. em meio a absorventes, batons, chaves e moedas um tubo de plástico carregava vida.

no escritório ele tinha um lugar especial, no canto da mesa naquele pedacinho onde batia sol. sempre regado com água mineral, era tratado como um animalzinho.

Ela lembra até hoje quando tudo começou. Na pré escola, plantando feijão no algodão, mas no dia que a Tia disse que a experiência tinha acabado se rebelou, levou seu feijão pra casa e resolveu que seria seu amigo.

Colocou o nome de carioquinha, pq esse era o tipo da leguminosa.

A mãe até estranhou, mas morando num apartamento tão pequeno não tinha como ter um cachorro, por isso deixou a filha com a maluca história do feijão.

Hoje ela já perdeu a conta de qual descendente do Carioca que a acompanha, é que as mudas anteriores cresceram demais para serem transportadas por ai. Mas foram devidamente plantadas na chácara da avó e deram ótimas sopas! Não sem antes separar um feijão pra continuar a tradição.

eu não vou ensinar seu namorado a dançar com você


Black Kids – I’m Not Gonna Teach Your Boyfriend